quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Discurso

Pessoal,

Procurei fazer um discurso que retratasse um pouco de tudo o que foram as Arcadas para nós nesses 5 anos. Está com uma linguagem simples, nada de frases rebuscadas, mas de uma forma adequada para uma apresentação oral.

Sei que está grandinho, mas vale a pena ler. Se curtirem, conto com a escolha de vocês...

Chora São Francisco...


É expressamente proibida a passagem de transeuntes pela Faculdade!



Na entrada da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, avistamos uma mensagem que, à primeira vista, pode parecer destinada a terceiros: “É expressamente proibida a passagem de transeuntes.” Quando calouro, um veterano me indagou sobre a legitimidade de tal proibição, dizendo ser inadequada tal prescrição para um espaço público, ainda mais, para um espaço público por excelência, como é a São Francisco. Contudo, quase que imediatamente após a reflexão, disse que como toda norma, aquela também poderia ser interpretada de várias formas. Perguntei o que mais poderia ser, ainda com a ingenuidade de calouro, e recebi como resposta algo que entendi completamente somente agora, às vésperas da formatura. Explico adiante.

Naquele ano de 2005, muitos de nós nos cursinhos, outros no último ano do ensino médio, sonhávamos, uns, em entrar naquela que é conhecida como a mais antiga e a maior Faculdade de Direito do país - a São Francisco; outros, em um curso daquela que é a mais antiga Universidade, o Direito da USP. Embora tais objetivos tenham sido diferentes, unanimidade era a o sonho que a São Francisco representava para todos. Mas, hoje, dizemos que fizemos Direito na USP ou SANFRAN?

Há mais ou menos 5 anos, o imponente prédio da nossa Academia havia acabado de ser restaurado. Era a Velha, mas Sempre Nova Academia que, literalmente, se rejuvenescia. Não só no seu espaço físico, mas, essencialmente, na sua alma mater: o corpo estudantil. Nascia nas Arcadas a Turma 179, aquela que aqui, hoje, celebra a sua formatura e que, com propriedade, pode dizer que a nossa Faculdade, ao se reformar, se maquiou e vestiu a sua mais bonita roupa para parabenizar aqueles que passaram pelo vestibular da Fuvest que foi considerado o mais difícil da década.

Sim. Ao retirar seus véus e tapumes, mostrar-se nova e linda, aquela velha senhora dava boas vindas para aqueles que iriam viver, dali em diante – e por mais que isso seja bordão – os 5 anos mais especiais de suas – nossas - vidas. Nas velhas e empoeiradas salas de aula, e que orgulho estudar nelas com nossas tão criativas tábuas, aprendemos nossos primeiros conceitos de Direito. Rabiscamos nossos primeiros cadernos e aprendemos a fazer nossos primeiros de muitos outros questionamentos jurídicos e filosóficos com que nos deparamos nas Arcadas. Conhecemos temas apaixonantes, complexos e muitos outros, alguns até entediantes e chatos. Conhecemos autores e pensamentos. Kelsen, Reale, Weber e tantos outros. Ouvimos muito da palavra “Mestre”, título que muitos dos nossos professores souberam honrar como ninguém.

No pátio, nas salinhas e no Porão, conhecemos pessoas. De carne e osso. E de muito coração. O nosso Xaxá, o nosso Valdir, o nosso Toninho Bedel. Foram tantas ajudas e tantos galhos quebrados nesses 5 anos. São pessoas que seguirão vivas também na memória. Amamos. Namoramos e terminamos. Tivemos alegrias e decepções e, muitos, talvez, tenham conhecido em uma conversa sob as encantadas Arcadas a futura mãe de seus filhos. Aprendemos que, em qualquer lugar que estejamos, ao encontrar um colega franciscano, por mais que gerações e gerações separem nossas vidas, teremos sempre um carinho mais que especial um pelo outro, simplesmente por sabermos que é no Largo de São Francisco que moram a amizade e a alegria.

Aliás, se tem algo que nunca sai do franciscano é o amor que ele tem pela Academia. Esse amor se manifesta pela saudade imensa que já temos e que teremos até o último suspiro, pois, a partir do momento que colocamos nosso pé dentro dela, ela não sai da nossa vida. Ainda bem, porque não queremos mesmo, de maneira nenhuma, que ela saia.

Ganhamos com isso um grande presente. O verdadeiro conhecimento da palavra amizade. Amigos conhecemos durante todo o tempo, mas a gente costuma ouvir das pessoas de mais idade que é na Faculdade que encontraremos as amizades da vida e para a vida toda. Conhecemos nossos veteranos e colegas calouros, alguns dos quais vieram a corroborar a sapiência dos mais velhos, pois se tornaram nossos mais queridos e especiais amigos, nossos mais fiéis companheiros e verdadeiramente nossas amizades eternas.

Tomamos banho da Sé. Alguns que aqui estão, neste quinto ano. Tomamos e demos banho no Bota Fora. Tivemos festas, e que festas. Quantas Peruadas, e como não lembrar do lendário Vitão. Tivemos Jogos, e que jogos. Mesmo na derrota, não há dinheiro que pague sermos franciscanos nas competições. Não há outra faculdade em que os atletas tenham tanta raça como a que vive nos atletas franciscanos. Tivemos pinduras. E quantos TCs e BOs não foram feitos para que essa tão desgastada e mal-interpretada tradição genuinamente franciscana não morresse. Fizemos récitas. Conhecemos e ajudamos a perpetuar tradições. E quantas tradições têm essa Academia. Aprendemos a cantar trovas. E nossos ouvidos amam nossas músicas. Aprendemos a falar o idioma franciscano. Aprendemos a gostar do cheiro de madeira, pó e até poeira. Também do cheiro de cerveja na Sala dos Estudantes em um grito do Peru ou nas cervejadas do Largo. E quantos litros não bebemos? Aprendemos a reverenciar três cores. Aprendemos que o Bauru e o “parabéns a você” foram inventados por legítimos franciscanos. E tantas outras histórias e lendas ajudam a manter vivos o mistério e a paixão de nosso querido lar.

Vivenciamos a política. Seja nas disputadíssimas eleições do XI, ou nas da RD. Vimos a democracia em carne viva que existe em nossas Arcadas - um verdadeiro microcosmo da política nacional, mostrando lados bons e ruins que nos deram muitos exemplos do que fazer e do que não fazer se um dia seguirmos esse árduo, mas apaixonante, fardo. Vimos o espírito solidário de alguns dos nossos mais nobres colegas e amigos que, ao longo de toda vida acadêmica, lutaram pela valorização de nossa Justiça e assistência gratuita aos necessitados trabalhando no DJ, bem como no Saju. Torcemos e xingamos nos jurídicos. Olhamos com admiração as placas de homenagens e as pessoas ilustres que adornam nosso Pátio. Trouxemos o Álvares de Azevedo de volta às Arcadas.

Não passamos incólumes às manifestações em nosso Jardim de Pedras. E foi lá que, neste ano, mais de mil franciscanos se reuniram para unidos derrubar qualquer ameaça dirigida à nossa Faculdade. Mostramos a quem pagou para ver, incluindo reis e soberanos, que a heróica pancada de que tanto falamos não é apenas uma trova, mas o sentimento que move e não permite que um verdadeiro franciscano se cale. Assim, defendemos nossa Biblioteca, símbolo de nosso conhecimento. Decoramos frases famosas. “Quantas pedras forem colocadas, tantas arrancaremos”; representativa de nosso espírito crítico, de nossa luta pelos valores basilares que compõem hoje nosso Estado Democrático, o qual foi em muita parte construído por antigos franciscanos, tenham sido ilustres ou não.

Ao longo de todo esse caminho, não podemos esquecer também de nossos mais sólidos pilares. Daqueles que nos deram a vida. Que se dedicaram e suaram para nos dar a melhor educação possível, que foram nossos primeiros e mais importantes mestres. Que muitas vezes deixaram de fazer alguma vontade própria para nos dar um brinquedo a mais, ou qualquer outra coisa que nos fosse importante. Que choraram por nossas tristezas. Que riram junto conosco das nossas alegrias. Que se preocuparam, nos nossos aniversários, em fazer boas comemorações e que também passaram noites em claro quando estivemos doentes. É a eles, nossos queridos pais e familiares, presentes e ausentes, que foi dada a maior alegria naquele inesquecível 6 de fevereiro de 2006, quando , após tanta expectativa de todos, saiu a nossa lista da Fuvest. A eles, mais do que ninguém, cabe o maior orgulho de nossa formatura hoje. Obrigado, pais e mães, obrigado aos nossos entes familiares.

E, assim, relembrando de tanta coisa, esquecendo de outras, é que pudemos entender um pouco o que significa aquela frase inicial desse breve discurso.

Existem centenas de Faculdades de Direito. Milhares de bacharéis. Faculdades boas e ruins. Dizemos que estudamos na mais antiga, na maior e mais importante faculdade do país. Verdade? Sim. Por nossa excelência acadêmica? Talvez sim, talvez não!

Diante das tantas coisas que vivemos, das muitas outras que aprendemos, de todas as histórias que conhecemos, das mais vivas experiências que tivemos, é fácil responder porque existem tantas Faculdades, mas só uma São Francisco.

É porque as Arcadas nos ensinam vida. Fazem aumentar aquele espírito crítico que naturalmente carregamos dentro de nós. Dão-nos o tal espírito franciscano que não teme qualquer desafio. Isso porque a vida política prepara homens e mulheres para as questões de nossa coisa pública. Porque a vida Acadêmica prepara novos intelectuais e transformadores da realidade por meio da educação. Porque a assistência judiciária gratuita cria no interior de cada um a vontade contínua de sempre fazer o bem e fazer do justo um objetivo incansavelmente constante. Porque a vida social, repito, nos dá os nossos melhores, mais queridos e sinceros amigos. Aqueles em quem aprendemos a confiar e admirar, e que mais orgulho nos darão em um breve futuro seja sentando nas mais dignas cadeiras desse país, seja sendo um cidadão comum, pois são e sempre serão, simplesmente, nossos amigos.

E tudo isso ocorre porque, nesses 5 anos, fizemos tudo, ou grande parte das coisas, da maneira mais profunda e intensa que, como doação que o é, não espera qualquer tipo de retribuição, senão nossa própria satisfação e a dos que nos cercam. É quando realizamos nossas tradições, quando trabalhamos e nos doamos para uma entidade, quando mantemos viva nossa história, que nosso autêntico espírito franciscano se manifesta e nos faz sentir algo diferente que só nós, franciscanos, entendemos: sim, é esse arrepio que você está sentido agora!

As Arcadas, além da formação jurídica, nos dão uma riquíssima formação humana. É nas entidades estudantis que aprendemos que não devemos nos ater ao Direito somente, mas sim a perseguirmos a Justiça. Nas políticas, que não devemos querer ganhar a qualquer custo, mas sim perseguirmos o bem público comum e a ética, sem dar importância a plantar uma nova eleição; o que plantamos são os nossos ideais e a nossa política por vocação. Nos esportes, a não desistirmos, mas lutar até o último minuto, mesmo que a derrota seja inevitável. Não há como não se emocionar com o esforço que todos demonstram nas competições. Não há como não sentir orgulho nas vitórias. E mesmo nas derrotas, nos orgulharemos sempre, pois sabemos que não é fácil treinar quase todo dia, suar tanto e carregar uma grande responsabilidade de vencer. De nossos amigos atletas nos orgulhamos sempre, seja vencendo ou perdendo.

Na vida acadêmica, aprendemos que não importa o cansaço, devemos estudar mais para conseguir nossos sonhos e objetivos, pois muitos deles são, também, sonhos por um Brasil melhor, pois o Direito é instrumento transformador da realidade, à qual não somos nem seremos cegos. Assim, para todos os cidadãos, de todas as classes sociais, que contribuíram para nossa formação ao longo desses 5 anos, não só esperamos, mas iremos recompensá-los do investimento feito, independentemente do caminho a ser seguido daqui em diante.

Fato é que, para falar da São Francisco, não conseguimos fugir de inúmeros chavões. Porém, bordões são vistos pejorativamente porque as pessoas, usando-os indiscriminadamente, passaram a vê-los como sonhos. Se prestarmos atenção, se cada um agora fechar os olhos e imaginar-se sentado em um banco no Pátio, olhando-o em cada detalhe, se imaginar-se em uma festa no Largo olhando de baixo a grandiosidade da nossa Academia e lembrar-se que um dia a São Franciscano foi um sonho, e, hoje, a mais doce de nossas realidades, vai perceber que nossos sonhos com força, luta e dedicação, por mais que pareçam chavões, podem sim ser realidade.

E, por tudo isso, finalmente revelo a interpretação que ouvi sobre a placa mencionada no início deste discurso: proibir a passagem de transeuntes não significa proibir que pessoas comuns passem pelas dependências da Faculdade, mas sim proibir que nós, franciscanos, simplesmente passemos pelas Arcadas deixando de nos doar e realizar tudo que realizamos.

Encerramos, talvez, a mais doce fase de nossas vidas. Não é à toa que tantos conselhos ouvimos para aproveitarmos mais que intensamente nossos 20 e poucos anos. E, para quem duvida que no Pátio de Pedras as coisas não são especiais, tenho certeza que quem quis fazer Direito na USP, fez São Francisco e que todos que não foram somente transeuntes, foram verdadeiros franciscanos, pois, como dizia o eterno poeta Fagundes Varela, inscreveram os nomes como alunos das Arcadas. E isso nos basta.

Franciscanos, no último dia de Jurídicos desse ano, conversando com um antigo aluno, eu dizia estar triste, com um vazio pela derrota e uma melancolia pela chegada da formatura. Sabiamente ele me respondeu: “A derrota é assim mesmo, podemos perder de vez em quando, isso já aconteceu antes e eventualmente, apenas eventualmente, pode acontecer depois. A formatura é rito de passagem, vocês vão se juntar a mim e tantos outros, seremos Antigos Alunos e onde nos encontrarmos estaremos como na São Francisco, nos bancos do velho pátio de pedras, brindando a vida e rejuvenescendo o coração”.

Parabéns a nós, eternos e agora ANTIGOS franciscanos, e que continuemos a realizar nossos sonhos, pois se não fomos transeuntes no Largo, não seremos transeuntes na vida!

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